É plausível supor, pela insipidez de suas promessas, que Flávio Bolsonaro queira evitar a memória ainda recente das mortes durante a pandemia
Artigo da profª Ligia Bahia, originalmente publicado por Carta Capital em 20/08
Impossível não se surpreender com as promessas para a saúde da plataforma de Flávio Bolsonaro. No texto “Para o Brasil Vencer o Atraso”, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o candidato da extrema-direita nega sua identidade e se desdiz. Começa pelas vacinas, produção nacional de imunizantes ao se comprometer em “manter a imunização.”
Embora, no mesmo mês e ano, Donald Trump tenha reduzido o número e alterado o calendário de vacinas para as crianças, sob o falso e gasto apelo à associação entre imunização e autismo.
Seguindo o líder, seu irmão, no Texas, diz que pagou 10 dólares e exibe um papel, que isentaria sua filha de apresentar comprovante de vacinação para a matrícula escolar. Se valer o escrito, haveria divergência entre comandante e comandado. Dada a retomada do Plano Nacional de Imunização a partir de 2023, o Brasil permaneceria entre os países que levam a sério o controle de doenças e mortes preveníveis por vacinação.
Propugnar pela prevenção e vacinação contrasta com o posicionamento do parlamentar que, durante a pandemia de Covid-19, foi ativo disseminador de fake news (página 702 do Relatório Final de Comissão Parlamentar de Inquérito) e afirmou que não se vacinaria por ter se infectado ou que se vacinou. Por outro lado, há indícios sobre a atração do candidato por negócios com vacinas.
Tal como se constatou durante a tragédia sanitária, os negacionistas “fraquejaram” perante as perspectivas de contrato com a empresa VTCLog, suspeita de participar de um esquema de corrupção envolvendo a aquisição da vacina Covaxin. O pretendente a Presidência da República teria sido mobilizado para destravar pagamentos ao laboratório Bharat Biotech, representado no País pela Precisa Medicamentos, mesmo após alertas técnicos acerca de superfaturamento.
O restante das proposições contidas no manifesto “Para o Brasil Vencer o Atraso” repete o que já está sendo realizado, sem ênfase ou polêmica. Saúde mental “será fortalecida e ampliada”. Sumiram as comunidades terapêuticas, na prática de algumas denominações religiosas, a internação compulsória para drogadição, a cura gay. Por saúde mental, o programa eleitoral de Flávio Bolsonaro abandona as drogas e seleciona depressão, ansiedade e Alzheimer.
A mesma operação, de apagamento de consignas, incide sobre as alternativas para a saúde da mulher. Parto humanizado, fertilização e reprodução assistida, acesso a anticoncepcionais, dignidade menstrual e aborto legal ficam restritos a “exames preventivos, mulher com câncer, na menopausa e gestação”. Para quem escreveu a plataforma do Partido Liberal e pulou um ciclo de vida, a menopausa que ocorre em mulheres que menstruaram é um problema, o apoio à higiene, segurança e acesso a absorventes não.
