Lucas Andrietta comenta desafios do Agora Tem Especialistas

Em entrevista ao “ Outra Saúde”, pesquisador analisou desafios na implementação do programa

Criado em 2025, o Agora Tem Especialistas – iniciativa do Ministério da Saúde e do Governo Federal – foi tema do programa Outra Saúde, no qual o repórter Gabriel Brito entrevistou o pesquisador Lucas Andrietta, membro do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre a Empresariação da Saúde (GPDES) do Instituto De Estudos sobre Saúde Coletiva (IESC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre os desafios na implementação do programa e o cenário da saúde no Brasil.

“O que temos problematizado desde o início do programa é um certa carência de metas específicas”, afirmou Andrietta. “Minha visão é de que o Agora Tem Especialistas tem acertos mas também uma série de problemas, que eram previsíveis, e um deles é nossa capacidade no curto prazo de ampliar a oferta pública via contratação do setor privado. Esse é o componente que gerou mais repercussão e controvérsia e sobre o qual os debates têm se concentrado. É possível dizer que, do ponto de vista quantitativo, o programa nunca teve o objetivo de ser o carro-chefe da atenção especializada. Por outro lado, ele tem prioridades e elegeu algumas áreas a partir de critérios epidemiológicos. Gostaríamos de ver esse e outros programas tendo a capacidade de diminuir as desigualdades regionais, ampliando o acesso e a oferta”.

A engenharia financeira do programa também foi um tema abordado na entrevista. Segundo Andrietta, “O Agora Tem Especialistas é uma porta de entrada para uma discussão muito mais complexa sobre preços na saúde brasileira”.

“A remuneração por servições de saúde é um problema que aparece em muitas das nossas discussões”, afirmou o pesquisador. “A oferta pública já é executada há muito tempo a partir da contratação de prestadores privados. O programa oferece algumas novidades mas não muda essa essência. Agora temos esse pequeno mecanismo que provoca essa discussão, o que já é interessante para nós, mas apesar das conversas envolvendo grandes prestadoras de serviços e operadoras de planos, isso não se reverteu num volume de produção assistencial como se poderia imaginar seis meses atrás”.

As desigualdades público-privadas no país e o futuro do Sistema Único de Saúde (SUS) também foram abordados pelo pesquisador.

“A profundidade das desigualdades público-privadas no Brasil expressa outras desigualdades e se coloca como um desafio muito grande”, afirmou Andrietta. “Temos um razoável consenso sobre o SUS que queremos e que enxergamos no fim do túnel, mas precisamos discutir quais os caminhos que nos levarão até lá, e como construir alternativas políticas para transformar o sistema de Saúde no Brasil. Temos uma série de tendências à privatização que precisam ser revertidas”.