Oscar Feo: “Saúde coletiva é um mecanismo fundamental de construção de cidadania e democracia”

Em aula no auditório do IESC, professor venezuelano analisou os sistemas latino-americanos e defendeu transformação no setor

O Auditório do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) foi palco, na tarde de segunda-feira (6), da aula Sistemas de Saúde na América Latina, organizada pelo Observatório de Desprivatização da Saúde, que contou com a presença do Professor Oscar Feo Istúriz, titular da Universidade de Carabobo e do Instituto de Altos Estudos de Saúde Arnoldo Galbadón. No evento, o professor analisou o cenário encontrado no continente e destacou a necessidade de uma profunda transformação nos sistemas de saúde latino-americanos.

“As bases epistêmicas e políticas sob as quais os sistemas de saúde foram construídos na América Latina reproduzem uma colonialidade no saber sanitário” – afirmou Feo. – “É muito difícil ter um sistema de saúde universal se as características desse sistema são determinadas pelos interesses econômicos dos Estados. Há uma guerra cognitiva na qual se repete permanentemente que o que é público não funciona e que é essencial levar o setor privado à condução da saúde para que ela funcione”.

Em sua apresentação, o professor destacou como a mentalidade colonial expressa principalmente na política e no campo acadêmico privilegia conhecimentos oriundos do Norte global, desprezando saberes do Sul e de regiões como a América Latina.     

“Há uma opção por uma mentalidade hospitalocêntrica, que pensa a saúde em função das doenças e não das condições de vida” – destacou o professor – “Além disso, o complexo médico-industrial-financeiro da saúde se transformou em um ator fundamental das políticas de saúde, convertendo o setor principalmente em um cenário de acumulação de capital, nos impondo suas categorias e se apropriando das nossas. É o que faz com que muitos governos, mesmo progressistas, desenvolvam políticas sociais neoliberais alinhadas ao capital e aos interesses do Banco Mundial, que terminam por nos devorar”. 

Apresentando o que classificou como uma batalha permanente entre os paradigmas empírico funcional e crítico intercultural da saúde coletiva, Feo destacou a necessidade de romper o ciclo de reprodução de dependência colonial nas políticas públicas, nas ações de governo e também nas teorias acadêmicas.

“Para nós a categoria universal é fundamental, mas o capital apropriou-se dela e agora sua política fundamental é a cobertura universal da saúde e os sistemas de saúde baseados na atenção primária” – afirmou o professor. – “Muitas vezes esses conceitos chegam a nos confundir e muitos passam a crer que a saúde coletiva se restringe a sistemas de combate a doenças para todos, quando na verdade ela é um mecanismo fundamental de construção de cidadania e democracia. Na América Latina não fazemos saúde pública, mas sim enfermologia pública. Temos que resgatar a universalidade, não como fim, mas sim como estratégia para enfrentar desigualdades e para construir soberania sanitária”.

Ao concluir sua aula, o professor instou colegas e espectadores a buscarem uma análise crítica dos modelos de sistemas de saúde, destacando a importância do papel da saúde na criação e solidificação de sociedades democráticas.

“A base histórica da privatização da saúde está no pluralismo estrutural e na separação de funções, e em muitas faculdades de saúde repetimos esse discurso, sem pensamento crítico, nos esquecendo de que os sistemas de saúde devem garantir o acesso à saúde e promover a participação social” – afirmou. –  “O mesmo capital que impulsionou a criação de ministérios da Saúde na América Latina foi o que décadas depois tentou privatizá-lo e defendeu a criação de programas verticais que são cicatrizes da História e expressões dos modelos coloniais eurocêntricos. Temos que construir um sistema categorial que nos permita repensar a saúde e, dessa forma, realizar uma ação sanitária distinta. Esse é o desafio do século XXI, e a luta pela saúde é uma luta por uma nova sociedade. Saúde é democracia e democracia é saúde”.